Sob o olhar Misericordioso de Jesus (São Pedro e São Paulo)
Artigos | 20/07/2020

Queridos irmãos e irmãs, no próximo dia 29 de Junho a Igreja celebrará a
Solenidade de São Pedro e São Paulo, Patronos e guias da Igreja. Por ocasião
desta solenidade, fui convidado a dizer-lhes algumas palavras sobre o grande e
pequeno Apóstolo São Pedro. Por isso, para tal reflexão, decidi utilizar o
Evangelho de São Lucas, no capítulo 5, nos versículos de 1 a 11, trecho que
narra o chamado vocacional de Pedro, sua resposta e adesão a Cristo.
Em primeiro lugar, gostaria de sublinhar que em toda a história da salvação,
muitas ações divinas foram precedidas pelo olhar de Deus. Quando lemos a
narrativa da vocação de Moisés, por exemplo - “Vi a miséria do meu povo” (Ex
3,7) - notamos que a eleição de Moisés, que o olhar de Deus sobre ele, é
imediatamente precedido por um olhar mais amplo direcionado a um povo.
Assim, o Senhor olha para o povo, vê a sua aflição e depois olha para uma
pessoa específica, afim de fazê-la seu representante no meio deste mesmo
povo.
Ao falarmos da vocação de Pedro, contemplamos essa mesma dinâmica deste
olhar divino. Vejam, Jesus está falando a uma multidão reunida às margens do
lago de Genesaré, e é, precisamente, por causa deste povo que Ele olha para a
margem do lago e vê dois barcos ali parados (Cf. Lc 5, 1-2). Vê, em primeiro
lugar, um possível púlpito (o barco), de onde poderá realizar o seu
ensinamento, mas vê com certeza um homem, e por isso escolhe, “o de
Simão” (vs. 3). Este olhar de Deus, este olhar de Jesus, é o início de um
verdadeiro itinerário vocacional.
Habitualmente, este olhar carrega consigo um conteúdo profundo de
misericórdia. Fica isso bem explicito nos casos de Levi (Lc 5,27) e Zaqueu (Lc
19, 5), por exemplo, mas também neste episódio em que contemplamos o
chamado vocacional de Pedro. É um olhar que ultrapassa as fraquezas, as
limitações, as habilidades ou inabilidades. Ele simplesmente olha, compadecese e chama. Pedro, preso às suas fraquezas e limitações, se lança aos pés de
Jesus e pede que Ele se afaste, pois é um homem pecador. Jesus, mais uma
vez olha para Pedro e responde: “Não tenhais medo!”. Isso significa que não ter
pecados e fraquezas não são pré-requisitos para o chamado de Deus, mas sim
a abertura de coração à Sua vontade e à Sua voz.
Depois de servir-se do barco de Pedro para prosseguir com seu ensinamento,
aí sim o olhar direcionado ao todo (povo), volta-se para o particular (Pedro).
“Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo, lançai vossas redes
para a pesca”. Agora o dialogo é personalizado; é direcionado a Pedro. A
multidão parece ter sumido e, com ela, seus companheiros de pesca (que mais
tarde voltam a aparecer). Por hora, ficaram Jesus e Pedro. São duas as
direções para as quais se volta o olhar de Jesus: à multidão e à Pedro. Olhares
carregados de amor e misericórdia, como já dissemos. São olhares
entrelaçados, pois o olhar a Pedro é, em primeiro lugar, um encontro de
restauração pessoal, um encontro de amor. Mas depois, o primeiro momento de
um chamado vocacional e um envio: “doravante serás pescador de
homens” (Lc 5,10). Portanto, toda vocação verte essencialmente do coração
compassivo de Deus, que vê (olha) a aflição do seu povo e não é indiferente.
Vocação é missão, vocação é serviço.
Uma das principais características do discipulado cristão, e que se torna
original quando em comparação ao discipulado rabínico, é que aqui, a iniciativa
provém do Mestre e não do discípulo. No discipulado comum daquela época “o
procedimento usual para um aspirante a discípulo era procurar um rabino
estimado para lhe ensinar a Torah” (MEIER, 2001) e não o contrário. Com Jesus
a lógica é diferente. É Ele que escolhe. Ele é quem chama para o seguimento. A
iniciativa é de Jesus. Pedro não se oferece e nem mesmo oferece o seu barco.
Tudo parte da iniciativa (amorosa) de Jesus. Ele entra no barco de Pedro, mas
quer mais que isso. Quer entrar na vida de Pedro. Para isso precisa apenas da
disponibilidade do seu coração.
A expressão “faz-te ao largo” é significativa. Pode ser também entendida como
“vai em profundidade”. (Cf. DE VIRGILIO, 2009). Trata-se nem tanto de um
movimento geográfico e físico, mas espiritual. Ir em profundidade é
transcender os limites da razão e do medo (“sou pecador” vs. 8), mas deixarse alcançar pela Palavra e Amor de Jesus que nos chama, não obstante todas
essas realidades.
Queridos irmãos e irmãs, a Liturgia da Palavra deste Domingo, na grande
solenidade de São Pedro e São Paulo, destaca, não os dois homens de grandes
sinais e pregações, mas dois homens limitados, ambos na prisão. Sublinha, por
outro lado, a manifestação da força de Deus e as grandes maravilhas que Deus
pode realizar na vida de uma pessoa que dilata o coração ao Seu chamado e
que, “deixando tudo” (Lc 5, 11) entra, com humildade, para o seu seguimento. À
voz do Senhor que chama, a grandeza de Pedro foi abrir o coração com
humildade e obedecer: “porque mandas, lançarei as redes” (vs. 5).
Pedro, pequeno e grande homem, alcançado pelo olhar misericordioso de
Deus, é modelo para todos os cristãos. Ensina com seu testemunho que ser
discípulo é, mesmo diante das limitações e fraquezas, escolher sempre
depender de Deus e obedecer fielmente à Sua Palavra.
São Pedro, rogai por nós!
Padre Pedro da Cruz, sjs